Das três [coisas], a invenção é a mais importante e fundamental, e portanto também a mais misteriosa.
Tolkien abre um espaço para ressaltar o "poder de encanto" do adjetivo na história; é quando "o Reino Encantado começa" e "o Homem torna-se subcriador":
(...) como foi poderosa, como foi estimulante para a própria faculdade que a produziu, a invenção do adjetivo. Nenhum feitiço nem mágica do Reino Encantado é mais potente.
Para Tolkien, "o aspecto da subcriação é muito pouco considerado". A partir dessa afirmação, ele traz à tona a discussão entre o mito e o conto popular:
Houve uma época em que era opinião dominante que todos esses elementos derivavam de "mitos da natureza". Os Olímpicos eram personificações do sol, da noite etc, e as histórias contadas sobre eles eram originalmente mitos (alegorias) dos processos da natureza. O épico, a saga então localizavam tais histórias atribuindo-as a heróis ancestrais, mais poderosos que homens e no entanto já homens. E finalmente essas lendas de reduziram, transformando-se em contos populares, Märchen (contos de fadas, em alemão) - histórias infantis.
Tolkien desmistifica isso, ao afirmar que quanto mais próximo a alegoria dos processos da natureza está de seu suposto arquétipo, menos interessante ele é. E a prova cabal disso é que "tais objetos naturais (astronômicos ou meteorológicos) só podem ser revestidos de significado e glória pessoal por um dom, o dom de uma pessoa". Isso porque "a personalidade só pode derivar de uma pessoa".
Os deuses podem derivar sua cor e beleza dos sublimes esplendores da natureza, mas foi o Homem que os obteve para eles, abstraiu-os do sol, da lua e da nuvem. Através do Homem recebem do mundo invisível o Sobrenatural, a sombra ou a centelha de divindade que lhes cabe.E conclui o trecho, dizendo:
Não há distinção fundamental entre as mitologias superiores e inferiores. Seus seres vivem, se é que vivem, pela mesma vida, exatamente como os reis e camponeses no mundo mortal.
Comparando a história, tal qual servida pelo autor, com uma "sopa", Tolkien diz que "a Panela estava sempre fervendo e lhe foram continuamente acrescentados novos ingredientes, saborosos ou não".
Depois de fazermos o que a pesquisa é capaz de fazer - coleta e comparação das histórias de muitas terras -, depois de explicarmos muitos dos elementos que comumente se encontram incrustados nos contos fadas (madrastas, ursos encantados, bruxas canibais etc) como relíquias de antigos costumes, ainda resta um ponto muito frequentemente esquecido: o efeito produzido agora por essas coisas antigas, nas histórias tais como são.Esse ponto esquecido é de suma importância, já que tais coisas "agora são antigas, e a antiguidade tem um apelo próprio".
Os elementos antigos podem ser extraídos, ou esquecidos e descartados, ou substituídos por outros ingredientes, com a maior facilidade. As coisas que existem [nas variantes próximas de uma história] devem ter sido mantidas (ou inseridas), muitas vezes, porque os narradores orais, instintiva ou conscientemente, sentiram sua "significância" literária. Mesmo quando se suspeita que uma proibição em um conto de fadas deriva de algum tabu, praticado muito tempo atrás, provavelmente ela foi preservada nas etapas posteriores da história do conto em virtude do significado mítico da proibição.
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